Reencarnação!!!!!!


Meninas e meninos, hoje o assunto é palpitante e polêmico: reencarnação.
Como sou meio cientificista, gostaria de deixar claro que, se a ciência não comprovou sua existência, também não conseguiu negá-la. E temos um monte de histórias divertidas, meninos pilotos, guris (guris, não gurus!) indianos, sem contar inúmeras mensagens psicografadas que asseguram, se não a reencarnação, ao menos a permanência consciente do espírito depois da morte.

A reencarnação é uma excelente sacada. Sem ela, não há justiça possível. O sujeito tem todas as oportunidades na vida, vive uma vidinha medíocre, passa um tempinho no purgatório e o resto da eternidade no céu; o outro passa fome, é filho de gente que não teve nenhuma oportunidade na vida, acaba roubando para sobreviver, é preso, para continuar vivo precisa se aliar a bandidos piores, termina linchado por pessoas de bem de classe média e, claro, passa o resto da eternidade no inferno. Ou, se for neopentecostal, pode ser corrupto, safado, pedófilo, estuprador, contar final de filme que, se no último segundo de sua vida calhorda, se arrepender e aceitar Jesus, vai para o Paraíso por toda a eternidade, dando bananas para os otários que viveram direito.
Convenhamos que a mera existência de locais como céu e inferno já seriam uma prova da inexistência de Deus. Como disse (acho) Borges, “O que é o Céu senão um suborno, e o que é o Inferno senão uma ameaça?” Então o ajuste reencarnatório acaba sendo a única forma de haver alguma justiça no mundo. O famoso “aqui se faz, aqui se paga” levado às últimas consequências.
Então, já que mediante a sagacidade de minhas observações todos concordamos que existe a volta, vamos à segunda etapa: cadê os que voltam?
Fora as inúmeras Cleópatras por aí, todo mundo tem essa curiosidade – até quem não acredita! Havia um seriado maravilhoso, chamado “Os Normais”, em que, num episódio, a personagem principal era submetida a uma regressão e se via como alguém que esteve na Revolução Francesa. Os demais personagens debochavam, afinal, “todo mundo” veio de lá. E o deboche tem uma certa razão, pois se falam de coisas como ciclos encarnatórios, e um grande número de brasileiros de fato teria estado lá (existe um excelente livro a respeito, “Eu Sou Camille Desmoulins”.  Vale a leitura).
A querida médium Yvonne do Amaral Pereira (1900/1984) tinha, entre seus amigos espirituais, o compositor polonês Fryderyk Chopin (1810/1849). Batiam seus papos, e num deles, no final dos anos 50, o pianista teria dito que os grandes artistas do passado, insatisfeitos com os rumos da arte, resolveram (mediante sabe Deus que arranjos) reencarnar, capitaneados pelo escritor Victor Hugo (1802/1885), mas que isso só ocorreria perto do ano 2000. Isso, frise-se, foi divulgado no final dos anos 50.
Bem, se eu fosse um escritor sério e responsável, terminaria meu artigo aqui. Mas não sou, então mencionarei dois nomes: o americano Jay Greenberg (1991) e a inglesa Alma Deutscher (2005).
Aqui, uma pequena explicação para os não-músicos. Escrever uma peça de concerto tem certas complexidades. Aliás, muitas. Há regras, sólidas, mas muitas vezes é importante quebrá-las; saber quebrá-las exige talvez mais conhecimento que segui-las... Para facilitar, vá ao Youtube e pegue uma peça que todo mundo conhece, o “Bolero”, de Ravel. A música é repetitiva, uma melodia muito simples, mas observe a habilidade necessária para repeti-la sem que fique monótona; observe que a cada momento a orquestra cesce em volume, intensidade, quantidade de instrumentos... Ouça o primeiro movimento da quinta sinfonia, de Beethoven, afinal você só conhece o tam tam tam taaammm; note como esse pequeno tema reaparece, como ele é tratado ao longo da peça. E veja que cada trecho se utiliza de instrumentos específicos, não é bagunça, além dos já citados intensidade e volume. E temos, não se esqueçam a ópera, onde fica tudo mais complicado: há o texto a ser musicado, a ser falado, há a forma de mostrar o enredo, as decisões dramáticas, e a música (além de tudo já citado) é usada para intensificar ou realçar emoções. Vivemos num mundo de Andres Rieus, onde apenas a música mais famosa ou o trecho mais conhecido é tocado, de forma a agradar, e esquecemos o conjunto, as condições que ocorrem durante a música para aquilo acontecer. E, para os compositores, há uma enorme curva de aprendizagem. Beethoven escreveu coisas ruins, assim como Bach; eles foram aos poucos, com muito esforço, dominando seu ofício. Schubert e Mozart, prodígios, tiveram mais facilidade, ambos morreram antes de chegar a seus auges técnicos, supõe-se.
Aí vem um moleque de 15 anos e escreve essa sinfonia: https://www.youtube.com/watch?v=MrtnkMmimwE
Está na categoria dos fenômenos, pois além de muito bem escrita tem profundidades difíceis de se entender como entraram na cabeça de um guri. E ele produz desde a mais tenra infância. Mas minha favorita é a pequena Alma, nome apropriadíssimo para ela.
Antes de falarmos dela, por favor assistam a essa menina, de 7 anos, tocando violão (a primeira música é de Francisco Tarrega e a segunda de Agustin Barrios):
e, depois, aos 9:

Ela foi excepcionalmente bem treinada, e certamente é talentosa. A meu ver, não está lá muito feliz no palco, o que me incomoda, e muito (infância é para se ser feliz). Mas comparem com a alegria e desenvoltura de Alma, aos 7, tocando ao piano uma de suas composições (que ela mesma considera uma piada musical, sobre o tema dos celulares Nokia – aliás, uma música de Francisco Tarrega, que já apareceu nesse texto):
No mesmo ano, tocando uma peça de Beriot ao violino:
Aí, aos 9, tocando uma peça sua...
Outra (olhem a carinha dela!)
O youtube fornece diversas opções dessa menina. Sugiro olharem Cinderella, a ópera que ela compôs. Ou improvisando.

Não sei se ela é reencarnação de Mozart. Não tenho NENHUMA dúvida que é a reencarnação de algum grande músico. O que ela faz não pode ser treinado, nem pode se nascer com isso. Habilidade musical sim, é inerente à raça humana. Mas nascer sabendo intuitivamente (ou aprendendo em idade improvável) regras baseadas em séculos de evolução é um pouco mais difícil de explicar. Fora que não basta saber as regras, é preciso ter o inexplicável talento. Vejo a pequena Alma fazendo o que ela faz aos 7 anos, e me pergunto se com essa idade eu ao menos já sabia ir ao banheiro sozinho...

Update: acabo de assistir a uma entrevista dela que vai ao encontro da história que Chopin teria dito. Ela diz: Eu gostaria de fazer o mundo mais bonito com minha música. Algumas pessoas acham que não está certo fazer música bonita hoje em dia, isso não é permitido. Sou apenas uma criança, mas não consigo entender o porquê.


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